Alastrante

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011











Civilização e barbárie

Será legítimo que o Estado destrua a liberdade individual para recriar uma natureza humana benigna?

Stanley Kubrick vem a São Paulo. Não o Kubrick real, morto em 1999 para prejuízo de todos os artistas e aficionados. Falo de uma das suas criações, "Laranja Mecânica" (1971), em cópia restaurada para a 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É nesses momentos que uma pessoa lamenta sinceramente estar na Europa."Laranja Mecânica" foi o primeiro filme "adulto" a que assisti na vida, sem vigilância paternal. Foi uma bela iniciação à filosofia política, e relembro cada fotograma como se tivesse sido ontem. Sobretudo o rosto de Alex, espantoso Malcolm McDowell, que mais tarde reencontrei, ou redescobri, nos filmes de Lindsay Anderson ou Paul Schrader. Mas divago. Alex era o rosto do mal. Do mal puro, perverso, sem justificação "médica" ou "sociológica" possível. Ele vagueia pelas ruas e, ao som de Beethoven, seu herói romântico, espanca e estupra. A moralidade judaico-cristã não existe para Alex. Ou só existe para ser quebrada. Alex destrói porque pode. Destrói porque gosta. Foi a violência de "Laranja Mecânica" que me impressionou. Mas não apenas a violência de Alex: gráfica, óbvia, caricatural, dir-se-ia até musical -a sequência em que Alex espanca mais uma vítima ao mesmo tempo em que canta (e dança) "Singin' in the Rain" rivaliza em vitalidade com Gene Kelly no filme "Cantando na Chuva" (1952).A grande violência do filme vem a seguir: quando Alex, finalmente capturado, é submetido a uma terapia radical destinada a extirpar os seus instintos destrutivos e antissociais. Quem viu não esquece: uma série de imagens projetadas na tela da prisão -imagens torpes, insuportáveis- que Alex consome de olhos abertos, bem abertos, forçadamente abertos. Ele, a violência em pessoa, não suporta o excesso de violência que é obrigado a tragar durante horas e horas de tortura e imobilidade.No fim do ordálio, Alex é um caso de "sucesso": uma espécie de lobotomizado social, pronto para ser posto em liberdade. Ou, pelo menos, nós acreditamos que sim.Só mais tarde li o romance de Anthony Burgess (razoável) e as entrevistas (excelentes) do criador sobre a criatura. Admito: Burgess pode ser um inestimável fanfarrão e, segundo o seu biógrafo, Roger Lewis, um plagiário incorrigível. Mas as inquietações de "Laranja Mecânica" permanecem vivas: será legítimo que o Estado destrua a liberdade individual para recriar uma natureza humana benigna?Em teoria, talvez o programa seja apelativo: quem, em juízo perfeito, não gostaria de viver numa sociedade onde os criminosos são "reciclados" e, após terapia de choque, regressam ao mundo mais inofensivos que um cordeirinho? Burgess entende o apelo. Kubrick também. Mas em "Laranja Mecânica" confrontamo-nos de imediato com as limitações desse programa. Para começar, ele é ilusório: a natureza humana é insondável, e a violência que existe nos homens fará sempre parte da sua imperfeita condição. Podemos disfarçar, ou reprimir, essa violência. Ela não ficará adormecida por muito tempo.Mas, mesmo que esse programa fosse possível e eficaz, existe uma segunda limitação: ele acabaria por destruir o sentido moral mais básico das sociedades humanas onde vivemos.O que define um agente moral, pergunta Burgess? A resposta é clássica: o seu livre-arbítrio. Noções de "culpa" ou "responsabilidade" só existem porque existe a ideia prévia de que não somos marionetes. Somos agentes autônomos, responsáveis pelos nossos atos. É por esses atos que devemos ser julgados. Depois da "reeducação", Alex pode sorrir, falar, caminhar. Ele parece um ser humano. Mas nós sabemos que ele não é mais um ser humano. E não é porque aquilo que nos define -a possibilidade de escolhermos, e mesmo de escolhermos erradamente- foi amputado no laboratório. Alex é essa marionete. Um mero cachorro amestrado. Assistindo a "Laranja Mecânica", entendemos que há crimes de Estado tão grotescos e imperdoáveis como os solitários crimes de Alex.E entendemos também como o equilíbrio entre a civilização e a barbárie é frágil. Tão frágil que, por vezes, esses dois extremos trocam de lugar. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011









A cosmética


Ser "corretinho" é marca de mediocridade, e a mediocridade é enturmada e anda em bando

Semana passada eu falava da "ética da beleza". Tema difícil. Defendi que mulheres bonitas devem usar, com moderação, a beleza como ferramenta na vida. E dizia que quem não usa é porque normalmente não tem. E que calcinhas fazem bem a vida cotidiana.
Falava também que a beleza é um fator contingente (fruto da sorte). Muita gente se pergunta se a beleza não é cada vez mais fruto da grana.
A sabedoria popular tem mesmo um ditado pra isso: "Não existe mulher feia, existe mulher pobre".
Isso é apenas mais ou menos verdade. Tem rica por aí que assustaria qualquer um a noite e pobre que encanta, mesmo que apenas na juventude. A relação entre grana e beleza se estreita à medida que os anos passam. Assim como a relação entre saúde e grana.
Sei que os "corretinhos" se irritaram com a ideia de que o mundo prefere as bonitas. Alguns desses "corretinhos" babam às escondidas em cima de meninas de 20 anos por aí, mas posam de sem preconceitos contra as mais feinhas. Não se deve confiar em pessoas que se dizem sem preconceitos. Os feios odeiam os mais bonitos.
Mas ser "corretinho" é marca de mediocridade, e infelizmente a mediocridade é enturmada e anda em bando, por isso ela é um risco contínuo para almas menos covardes (e por isso mesmo mais solitárias), desde a caverna.
Fossemos depender deles (os medíocres), não teríamos sobrevivido ao escândalo da seleção natural. A diferença é que hoje eles alçaram ao poder porque descobriram que são a maioria.
Uma das nobres funções da democracia é socializar o ônus da mediocridade dizendo que sustentá-la é um dever de todo cidadão, enquanto que ser medíocre é um direito apenas da maioria.
Vinicius de Morais já dizia isso (que o mundo prefere as bonitas ou "me desculpe as feias, mas beleza é fundamental"), mas ele teve a sorte de viver antes de nossa nova hipocrisia do bem.
Mas o que me espanta é como tanta gente (os "corretinhos") se irrita quando digo a mais banal verdade (o mundo prefere as bonitas) ao mesmo tempo em que vivemos numa cultura obcecada pela beleza de forma descarada (com as palmas silenciosas dos mesmos irritadinhos).
Imagino muitos deles em frente ao espelho, às escondidas, se perguntando "espelho, espelho meu, existe alguém mais bonito do que eu?", ao mesmo tempo em que a insegurança os faz odiar a beleza dos outros.
Se você chamar a obsessão pela beleza de "direito a autoestima" os "corretinhos" não vão reclamar.
Mas a questão é que escondemos essa obsessão, achando que ela é apenas um pecado da publicidade. Quer ver?
Há algum tempo atrás, na Inglaterra, comerciais com imagens de mulheres "trabalhadas" por programas de computador foram proibidos porque passavam uma beleza "artificial" como padrão de beleza.
Acho que as pessoas que proíbem comerciais assim, o fazem pra não se sentirem feias (o espelho delas responderia "sim, existe alguém mais belo do que você") e não porque se preocupam de verdade com a veiculação do padrão de beleza "artificial", como dizem.
Imagine se um desses censores de comerciais desse tipo for alguém de uns 50 anos ou mais, com tudo que isso implica em termos de "ação da gravidade" sobre o corpo e suas capacidades fisiológicas.
Você acredita que algum deles não usará os instrumentos artificiais de beleza que condenam no comercial? O que no comercial é Photoshop, na vida real é a cosmética (esta, segundo o iconoclasta Karl Kraus, é a cosmologia da mulher).
Só não vão usar como também pagarão em 36 vezes no cartão sem juros. Babarão sobre os pretensos resultados, comprarão roupas pra realçar estes mesmos resultados e à noite chorarão de felicidade quando o espelho acusar a suposta melhoria estética. E pensarão no silêncio de sua solidão: "Meu Deus como é triste ser feio e velho".
Tornar-se-ão consumidores obsessivos de revistas, blogs, gurus e sites especializados em beleza artificial e discutirão no "Face" acaloradamente a favor do "direito ao aumento de autoestima" que esses tratamentos de beleza artificial garantem, pelo menos por algum tempo, até a próxima depressão.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

As fãs de Justin Bieber


Bieber é o "date" ideal para a idade em que "frisson" do sexo é tentar descobrir quem já beijou e quem não


Percorri autobiografia e biografia de Justin Bieber. Também brinquei com dois livros de jogos para as fãs do cantor testarem seus conhecimentos.
Continuo não fazendo a menor ideia de quem seja realmente Justin Bieber, mas constato que sua imagem é uma caricatura bom-mocista: o "date" com o qual os pais sonham para as primeiras saídas de suas filhas. Por isso mesmo, aliás, é curioso que ele suscite paixões avassaladoras entre as meninas.
Uma amiga, com quem comentei a febre Bieber, observou que, quando éramos adolescentes, os pais nunca gostavam de nossos ídolos do rock e do pop: aos olhos deles, eram influências que nos levariam à perdição.
Como eles aprovariam Elvis, com aquele rebolado que já era um ato sexual? E todos os que eram drogados, rebeldes, andarilhos do amor livre? E os Stones, juntando a lascívia de Elvis, a rebeldia e as drogas?
E o figurino de Gene Simmons, do Kiss, hein? Entre os Beatles, os pais desconfiavam de John, George e Ringo, enquanto Paul era mais palatável. Engraçado, Paul era justamente aquele que encantava as meninas mais jovens -as que hoje adoram Justin Bieber. Ao longo dos anos, os pais não mudaram: eles continuam preferindo que as filhas gostem mais do modelo Justin que do Elvis. Tampouco mudaram os adolescentes propriamente ditos, que, hoje, acham Justin Bieber insosso, exatamente como nós o teríamos achado, quando adolescentes. Mas algo mudou, sim: chegou uma nova onda de consumidores (e sobretudo de consumidoras) de pop, mais jovens do que no passado.
A base dos fãs de Justin Bieber é composta de meninas entre 10 e 13 anos (cronológicos ou mentais), ou seja, meninas na fase na qual, aos olhos dos outros e delas mesmas, o corpo adquire novas formas e significações, que elas reconhecem como eróticas sem saber direito o que isso quer dizer (e ainda menos o que dá para fazer com isso).
As meninas dessa idade são invadidas por sensações, fantasias e pensamentos que são enigmáticos para elas mesmas, mas cuja premência as leva a imaginar que elas (e só elas) conhecem na pele os frêmitos do amor e do desejo.
As meninas de nove anos podem achar Justin um pouco bobo. As de 14-15, também. Mas, para as que estão entre esses dois extremos, Justin é milagroso: ele responde ao confuso despertar de sentimentos de suas fãs, permitindo-lhes acreditar em sua maturidade amorosa sem que elas sejam ameaçadas pela brutalidade inquietante do amor e do erotismo adultos. Ele é o namorado ideal para a idade em que o "frisson" do sexo é discutir no MSN quem é ainda BV e quem não é mais (para quem não sabe: BV é boca virgem, que nunca beijou). Como Bieber consegue essa façanha?
Justin Bieber é para crianças. José Simão, na sua coluna na Folha, aproximou o cantor do Toddynho e do chocalho (ambos, em geral, apaziguam as crianças). O mercado confirma: os livros sobre Bieber estão na seção infantil das livrarias.
Agora, ele não pode ser completamente criança: sua imagem deve acarretar uma ponta de transgressão, em dose mínima, sem assustar, mas suficiente para cada menina acreditar que, por amar Justin Bieber, ela está, ousadamente, além dos adultos.
No Google, procure fotografias de Justin Bieber e de Elvis de óculos de sol. O olhar escondido de Elvis dá arrepios, enquanto, digamos assim, os óculos de Bieber são parecidos com as novas sensações de suas fãs, mais obscuros do que escuros.
Enfim, graças a seu rosto infantil (redondo e bochechudo) e graças a uma produção cuidadosa (o incrível corte de seu cabelo), Justin é quase assexuado. As meninas podem sonhar com ele sem que nada as leve a fazer a preocupante descoberta de que elas não sabem quase nada do amor -e do sexo, menos ainda.
Só para sacanear, declarei a uma fã de Justin Bieber que eu acabava de ler, numa biografia do cantor, que, de fato, ele se chama Justino ou Giustino Biberoni e nasceu em Pindamonhangaba. Ela não achou graça. É que o ídolo deve ser familiar o suficiente para não assustar, mas deve também ser outro, bem estrangeiro.
Afinal, é a ele que a menina pede para ser levada embora, longe daqui, longe deste lugar ao qual ela não pertence e onde ela é circundada por adultos que não entendem nada, porque, diferentes dela, eles não sabem nada do sexo, do amor e da paixão.

ccalligari@uol.com.br

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

 
A ética de Eva


Temo que uma hora dessas inventem uma cota de feinhas para as faculdades, as empresas e a publicidade

Você acha que seria ético uma mulher usar da beleza pra conseguir o que quer na vida? E uma mulher usar seu belo corpo pra dar uma má notícia pro marido, como no comercial da lingerie Hope?
Esse comercial fala do poder feminino sobre o desejo do homem por ela e não sobre ela ser objeto indefeso do homem.
Aliás, desde o jardim do Éden. Apesar de Deus ter dito a Adão "não pode comer a maçã!", Adão não resistiu a Eva: "Come meu amor, come!". E Adão caiu de boca. O velho poder feminino.
Você pode ser uma daquelas pessoas que não entendem nada de mulher e dizer "isso é um absurdo!", mas o fato é que usar a beleza como instrumento de vida é um dado natural da experiência humana, e não necessariamente um ato canalha ou de submissão.
A beleza é como a cerveja: um "gesto" do corpo entre a devassidão e a moderação.
Antes de tudo, a palavra "ética" é hoje tão banal quanto "energia". Todo mundo tem um entendimento "pessoal" do que seria ética. Quando você escutar alguém começar com "a questão da ética", fuja. Só vem blá-blá-blá.
Na filosofia, não há consenso sobre o que é ético. Para alguns britânicos, como Hume, Oakeshott ou os darwinistas, a ética é uma disciplina que estuda hábitos de pensamento, de afeto e de comportamento, estabilizados numa comunidade (num sentido mais restrito) ou na humanidade (no sentido mais amplo), que se revelam hegemônicos e bem-sucedidos em garantir uma certa ordem e um certo sucesso no convívio comum ao longo do tempo.
Estamos aqui a anos-luz de distância da mania de "perfeição ética" de gente como Kant ou Singer (o cara que acha que bicho é gente).
Analisemos a ideia de mulheres (caso mais comum) usarem da beleza física pra conseguir coisas na vida, à luz dessa ética do hábito.
Devemos separar o uso abusivo da beleza do uso ético da mesma.
Uma mulher bonita X se veste com uma saia curta para uma entrevista, entra numa sala com outras pessoas e se senta de pernas abertas. Isso é abusivo. Uma mulher bonita Y se veste com uma saia menos curta do que a mulher X, mas que ainda assim revela, escondendo, sua beleza, entra numa sala com outras pessoas e se senta de modo discreto. Isso é ético.
Neste nosso "experimento", a mulher Y age de modo ético. Espera-se que mulheres bonitas revelem sua beleza (o mundo respira melhor onde há mulheres bonitas e a beleza é um gradiente, não um "ponto isolado no espaço"), mas essa revelação é pautada pela expectativa de que ela não esfregue sua beleza na cara de pessoas estranhas; na cara do marido, ela pode esfregá-la.
A ética aqui é antes de tudo o bom senso de que quem tem beleza pra revelar pode ser discreta; por extensão, quem tem beleza pra revelar e não é discreta é porque é "feia" por dentro.
A sutil relação entre ser bela e ser discreta compõe o campo dos hábitos morais desejáveis nas mulheres bonitas. Pode usar a beleza, mas com moderação, assim como o álcool.
O caso dos homens é um pouco diferente, não porque neles a beleza não conte, mas porque as mulheres erotizam facilmente o intelecto masculino, enquanto que homens dificilmente erotizam a inteligência feminina. Pouco adianta as meninas ficarem bravas com isso.
Se o entrevistador for um homem, provavelmente ele levará primeiro em conta a beleza das duas em detrimento das mais feinhas. Mas a vulgar sempre poderá perder a vaga no caso de o entrevistador ser também ele alguém de bom senso.
Todo mundo prefere gente bonita à sua volta. O ambiente de trabalho fica muito melhor quando tem mulher bonita, cheirosa e bem vestida por perto.
Mas isso não deve ser o critério último da decisão. Entre duas capazes, uma bonita e outra mais feinha, entretanto, a bonita leva.
Claro que a raiva contra argumentos como esse nasce dos chatinhos.
É a falta do "recurso" contingente (a beleza até hoje é em grande parte obra do acaso, ainda que cada vez mais passe a ser, em parte, obra da grana) que causa o rancor. Temo que uma hora dessas inventem uma cota de feinhas para as faculdades, as empresas e a publicidade.
Ou que proíbam as mulheres de ficarem de calcinha em casa.




Quando a Al Qaeda aparece como um exemplo de equilíbrio, eu começo a ver sinais do Apocalipse


"HUMOR" E "Irã" não costumam jogar na mesma frase. Mas a vida é uma surpresa. Nos últimos tempos, os únicos momentos de genuína gargalhada vieram por causa dos persas.
Começou com o discurso do presidente iraniano na ONU.Sobre o 11 de Setembro. Melhor: sobre os autores materiais dos atentados que mataram 3.000 pessoas. Terão sido obra da Al Qaeda? Ou, como defendem vários lunáticos dentro e fora dos asilos, foram antes os Estados Unidos que prepararam e executaram o golpe em solo próprio?
Mahmoud Ahmadinejad tem poucas dúvidas: o 11 de Setembro não pode ter sido obra da Al Qaeda. Melhor suspeitar de dedo americano. Foi o que bastou para que os protestos começassem a chover sobre Ahmadinejad. Não os protestos dos Estados Unidos. Ou da ONU, esse famoso antro de racionalidade diplomática.
Falo dos protestos da própria Al Qaeda, que se mostrou revoltada com as "crenças ridículas" de Ahmadinejad, que vão contra toda a "lógica".
Não pretendo ser alarmista. Mas quando a Al Qaeda aparece como um exemplo de equilíbrio, mesmo que seja para defender a sua dama, eu começo a ver sinais do Apocalipse.
Que não se resumem à Al Qaeda. Ainda do Irã, tivemos as palavras, sempre sábias, do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país. Disse ele que promete votar contra resolução palestina na ONU para a criação de um Estado respectivo. Repito: contra.
A lógica de Khamenei é impoluta: reconhecer um Estado palestino junto a Israel é, "ipso facto", reconhecer Israel. Ou, nas palavras elegantes do cavalheiro, é permitir a presença de "um tumor cancerígeno" no Oriente Médio. Isso é ir longe demais.
É, no fundo, uma traição à única causa que interessa: um Estado independente palestino, que se estenda do Mar Mediterrâneo ao rio Jordão, sem concessões de qualquer espécie. Tradução: sem nenhum judeu lá pelo meio. Ou é isso, ou é nada.
Infelizmente, tem sido nada. E o que espanta na retórica dos líderes ocidentais, Dilma Rousseff inclusa, é a absoluta incapacidade deles para formularem a única questão relevante sobre o conflito palestino-israelense: e se os palestinos, ou uma parte importante deles, não estão dispostos a reconhecer o Estado de Israel? Por que motivo obtuso deve Israel negociar com quem lhes nega esse reconhecimento?
A pergunta não é meramente acadêmica. Começa por ser histórica: em todas as propostas de partição da Palestina, foram os árabes que sucessivamente recusaram o Estado independente que agora reclamam.
Assim foi com as recomendações da Comissão Peel em 1937. Assim foi quando as próprias Nações Unidas propuseram a partição, em 47. Assim seria em 2000, quando Ehud Barak ofereceu a Arafat o que Mahmoud Abbas agora parece reclamar (um Estado palestino independente; Jerusalém partilhada; o retorno dos refugiados ao novo país).
E assim foi em 2008, três míseros anos atrás, quando o premiê israelense Ehud Olmert repetiu o cardápio do antecessor para obter a mesma resposta do outro lado: não, não e não. As recusas palestinas selaram o destino intratável desse conflito.
Mas a pergunta não é só histórica; é prática e bem prática. Hoje, não existe uma Palestina unida -e mesmo o "acordo" entre o Hamas, que domina Gaza, e a Autoridade Palestina da Cisjordânia não deve iludir um fato desconfortável: o Hamas não reconhece a existência do Estado judaico.
A sua carta fundamental é explícita sobre esse ponto. E também é explícita sobre um outro ponto, que o aiatolá Khamenei deixou claro: um Estado palestino não existirá ao lado de um Estado judaico. Fim de conversa. Os atos de terrorismo do Hamas são apenas a conclusão lógica da sua proclamação de "princípios" (digamos assim).
O mundo pensante pede a Israel para reconhecer um Estado palestino, coisa que Israel se propôs fazer várias vezes.
Mas o mesmo mundo não levanta a voz para obter dos palestinos, a começar pelos palestinos do Hamas, uma frase muito simples: aceitamos a existência de Israel e estamos dispostos a partilhar fronteiras soberanas e seguras com os judeus. Isso é que nunca aconteceu.
Falar dos assentamentos, dos votos na ONU e do veto dos EUA é tudo fumaça. E a fumaça só serve para esconder o essencial.